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quarta-feira, 5 de abril de 2017

**CONTRO-VÉRSIAS E PEDRA DE TOQUE** - PINTURA: Graça Fontis/SÁTIRA: Manoel Ferreira Neto


Epígrafe:


"“O neurótico faz castelo de areia nas nuvens; o psicótico mora nele”, eis a diferença" (Manoel Ferreira Neto)


"... quem me dera poder trocar esta chuva de maná pela fome do deserto." (idem, idem)


Mistérios não me aborreceram, nunca, jamais; a prova é que agora folgo diante de alguns mistérios enormes, verdadeiros mistérios (insondáveis). O conflito de duas hipóteses estabelecidas repousa sobre uma proposição disjuntiva: o homem é (por natureza) bom moralmente ou mal moralmente. Vem à mente, no entanto, facilmente a qualquer um questionar se esta disjunção é exata e se não se poderia sustentar que o homem por natureza não é nenhuma dessas coisas
Com este tom grave, não quero, afianço com seriedade, causar impacto, ser exagerado, fazer disto tragédia, encabular. Sempre gostei do inextrincável. Não odeio as questões simples, as soluções fáceis, não digo que as ame. A razão está só na sedução do obscuro e do complexo, está ainda em que o obscuro e o complexo abrem as portas à contro-vérsia.
Imagine, leitor, este mistério e depois me diga se não estou coberto de razões de ficar bestificado, estupidificado com as mesquinhas filosofias. Se a contro-vérsia não nasceu conosco, os homens, foi pelo fato inteiramente fortuito de haver nascido antes; se se não tem apressado em vir a este mundo, não importando se com ou sem cancelas, sem ou com fronteiras, era nossa irmã gêmea, se temos de a deixar neste mundo é porque ainda cá ficarão homens.
Se ergo a lebre da contro-vérsia nesta linguagem, que necessita ser lida várias vezes com muita atenção para entender, assimilar as idéias e mensagens, re-colhê-las e a-colhê-las no espírito, é que necessito com urgência ser compreendido, coisa que nunca aconteceu, não apenas nas letras, na vida mesma; para gastar mais um pouco de tinta e folha de papel com os mistérios que nos últimos dias assolaram minha mente, se a abrir só serão encontrados mistérios, até os miolos são misteriosos, é que só assim posso mostrar, identificar, de-monstrar os valores que me habitam, o que há nas minhas pré-fundas que merece atenção e re-conhecimento, meus desejos profundos no que tange ao destino e rumo dos homens, humanidade. A afluência de tantos mistérios é porque a poesia é também um mistério, dos mais insondáveis, e todos os mistérios são mais ou menos, tomando em conta certos fatores e perspectivas de análise, parentes uns dos outros.
Onde está o delírio? Onde estão as imaginações férteis, a criatividade? As melancolias, nostalgias? As estradas na lua, os castelos nas nuvens, o anel de Saturno? Onde vão todos esses sonhos deslumbrantes, que nos fizeram viver?
Não tenho papas na língua. Não me tomem os leitores por homem despachado que vem para des-vendar os mistérios mais pujantes da alma humana, re-velar dores e sofrimentos mais re-cônditos, sem dó nem piedade, dizer tudo na “lata”, rasgar todos os verbos. Qualquer homem foge léguas e milhas deles, fazem o possível e impossível para escondê-los. Não sou sádico ou masoquista. Não tenho papas na língua, é inconteste, consumado até ao fim dos tempos, é para vir a tê-las que escrevo.
Levantando a questão dos mistérios todos que habitam o ser homem, na alma e espírito, à altura da grande retórica e galhofa, diria que o pior deles não é o que deixa a vida em suspenso por todo o sempre, o que, se des-vendado, causará mais malefícios do que benefícios, mas o que busca a liberdade nas pré-fundas de todos os problemas, propriedade, sossego, todos esses pés morais, pedras de toque, se assim me pudesse exprimir com clareza e distinção, os dentes da compreensão, que nem sempre soem morder lentamente a carne das angústias, nostalgias, caminhar tranqüilo na estrada social.
Há uma outra coisa na questão dos mistérios: saber o que os homens devem esperar da vida que levou, ao final dessa, ou o que deve temer a esse respeito. Deve, como mínimo, com certa medida conhecer em primeiro lugar seu caráter. Assim, ainda que pense que tenha havido melhoria em sua intenção, deve compreender em seu exame sua intenção antiga (pervertida), de onde partiu, e poder dar-se conta daquilo que se despojou e em que medida.
O mistério, que a mitologia tradicional nos pinta ensombrecido, escuro e obscuro, ensimesmado e sorumbático, brilha como a pedra de diamante à luz dos raios de sol, brilha tanto que ofusca a visão – acredito ser esta a razão de tantas dificuldades, acompanhadas de todos os medos de nele mergulhar de cabeça.
Vejo no mistério – não me perguntem a razão, não saberia explicar mesmo que houvesse nascido com a bossa da genialidade – um argumento mais para comprovar as boçalidades, de o des-vendar, só tem sentido e significado se in-sondável, só fascina se ininteligível, só extasia se perpétuo. Prefiro-o como é. Nasci com a bossa da genialidade, mas com medo de me tornar gênio bossal, daqueles que têm resposta para todas as coisas e mistérios, se se lhes olhar dentro da cabeça, vê-se-lhe vazia, oca de toda. E a pergunta: “como pôde pensar e des-vendar tantos mistérios, se não tinha massa cefálica?” Vejo no mistério um argumento a mais em favor de minha tese: se os mistérios se fazem continuamente, basta estar vivo, a continuidade é também o mistério.
O leitor nasceu com a bossa da inteligência pura: morto, acabam os mistérios, para os mortos os mistérios são coisas da vida. Não me refiro aos irmãos do leitor, sobrinhos, compadres, nem a seus amigos, mas tão-somente ao próprio leitor, isto porque não os conheço, só conheço mesmo o leitor, eis a razão para escrever para ele – única e exclusivamente para não se afligir com os mistérios, é só entregar-se inteiro aos risos e ouros da poesia, tudo mais se escafede sem deixar vestígios. Todos os demais fiquem isentos da mácula se a há.
Dizendo isto a pessoas de minhas relações íntimas e pessoais, sobre isto de agarrarem-se aos risos e ouros da poesia, deixarem os mistérios se resolverem entre si mesmos, mesmo a troco de unhas e dentes, apertam-me o braço ou me puxam com força pela gola. Longe de lhes atribuir o gesto a simples censura, reprovação, condenação, estou muitíssimo errado, tudo foi feito para ser assumido, agarrar aos risos e ouros da poesia não vai resolver nossos problemas e mistérios, vai agravar ainda mais a psique, a loucura é inevitável. Longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acredito ser um modo de orarem e exporem os medos e resistências de se entregarem ao riso, serem galhofeiros com a vida, e também de os versos e estrofes dissolverem a única dignidade deles: a busca de conhecimento dos mistérios da alma e espírito.
Uma vez que se foge aos mistérios, entregando-se aos risos e ouros da poesia, onde achará método para distinguir um louco de um homem de juízo? Penso mesmo numa charada, se assim posso definir: “Qual a diferença entre o neurótico e o psicótico?”, cuja res-posta é: “o neurótico faz castelo de areia nas nuvens; o psicótico mora nele”. É muito perigoso viver de poesia. De ora avante, quando alguém vier dizer-me de problemas, conflitos, dores, sofrimentos, medo da morte e da vida, dos mistérios que nos habitam, ainda que não arranque os botões, não ficarei incerto se é pessoa que se governa, ou se está num daqueles intervalos lúcidos, que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não mais direi que se entregue aos risos e ouros da poesia, direi para se agarrar às barbas do profeta Abraão. É sabido que a demência dá ao enfermo a visão de um estado estranho e contrário á realidade. Também é sabido que a razão dá ao homem de inteligência, percepção, a visão de um juízo límpido e inerente aos idílios do nascimento e da morte.
Retornemos ao mistério que é o tema destas letras traçadas a rigor e critério com a pena da galhofa e tinta da sinceridade com que vivemos até que a morte nos separe, no além tudo transparente e nítido, no mundo todos os mistérios sem dó e piedade. Deve-se re-conhecer mesmo a cor-agem de viver no mundo, não só a coragem mas também a perseverança.
Quando a vida cá fora estiver tão agitada e aborrecida, risos e ouros da poesia acabam por aborrecer, o espírito e alma já não conseguem re-tornar aos mistérios, perderam-se na história que não se possa viver tranqüilo e saltitante, haverá um asilo para a minha alma – e para o meu corpo, naturalmente.
O céu é bom, mas imagino que não mais haver mistérios lá em cima não me legará sublimar com a poesia, com os seus ouros e risos. As pessoas que vão deste mundo anistiadas ou perdoadas por Deus, podem ter saudades da terra, dos mistérios que só fizeram sofrer, angustiar, deprimir, só fizeram travar os desejos de liberdade e divinidade, de consolidar o homem novo. Por pior que seja o mistério da vida, por desesperador e angustiante que sejam os mistérios da morte e da ressurreição dos pecados e mazelas, a terra há de dar saudades, melancolias, nostalgias, quando ficar tão longe que mal pareça um miserável pontinho preto no fundo do abismo. O pontinho preto que foste o meu infinito, universo, horizonte (exclamarão os bem-aventurados), quem me dera poder trocar esta chuva de maná pela fome do deserto. O deserto não era inteiramente mau; morria-se nele, é verdade, mas vivia-se também; e uma ou outra vez, como nos povoados, os homens quebravam a cabeça uns aos outros, espremiam os miolos mutuamente – sem saber porque como nos povoados.
A minha ojeriza maior que a dos mistérios insondáveis é a vulgaridade com que alguns intelectuais tratam a recorrência, isto é, haver tratado de algo numa obra, retornar ao mesmo, até com as palavras mesmas, em outras. O que chamam de empobrecimento das idéias, pensamentos, chamo de espiritualidade, pois que, ao longo das experiências vivenciárias e vivenciais fui aprofundando ainda mais, fui-me amadurecendo, compreendo mais e melhor o que é isto a vida.
Já escrevi não sei quantas páginas, centenas, posso afiançar com naturalidade, o leitor não conhece o meu acervo cultural, filosófico, teológico e literário, o número de páginas que já tenho escritas, o que conhece é apenas uma pontinha do iceberg, o já publicado. Escrevi sobre um sonho que tive há dez anos. Mas agora esta recorrência aprofunda muitíssimo o que é isto o abismo nisto dos mistérios insondáveis da vida.
Sonhei que estava com meus dois filhos à beira de um abismo; o mais novo, tranqüilo e sereno, quieto, ficou sentado no meu colo, o mais velho, inquieto, chamei-lhe a atenção diversas vezes, não aproximasse do abismo, se caísse nele, continuaria caindo por toda eternidade. De repente, larguei os dois á beira do abismo, fui embora. Encontrei um portão aberto, em verdade uma porta, estava com um das mãos cheia de semente, era jogar-lhes no chão de imediato nasciam uma espécie de pé de alface. Despertando-me o desejo de sentir-lhe o gosto, surgiu alguém, a que, no sonho mesmo, chamei-lhe “homem do espaço”, dizendo que não comesse aquelas folhas, eram amargas, intragáveis. Disse-lhe que não, rasgando uma folha, levando-a à boca, mastigando, dizendo-lhe: “Não disse! Nada de amarga, simplesmente deliciosa”, o que me respondeu: “de início, no tempo, ao longo dos anos, sentirá a amargura delas”.
Disse antes que haverá um asilo para mim, quando a vida cá fora estiver agitada e aborrecida com somente risos e ouros da poesia, a ausência plena e absoluta dos mistérios. O asilo que haverá para mim é o hospício. Não escrevendo obras mentais e complicadas, tratados de estética e beleza, de jurisprudência ou constituições políticas, nem filosofias, nem matemáticas, poderei achar nas reflexões e meditações acerca dos mistérios um paliativo, uma anestesia, a louca, e um pouco de descanso á agitação interior.
Bendito seja o que primeiro cuidou de encher-lhes o tempo com serviços e labutas, e recompôs-lhe em parte os fios arrebentados da razão. Lembrei o termo que iria completar o sentimento de minhas idéias: morfina. Uma morfina às dores e sofrimentos do mistério da vida e da morte, morre-se mais tranqüilo e saltitante, e a eternidade será bem mais longe do que diz as mesquinhas filosofias do além.


(**RIO DE JANEIRO**, 05 DE ABRIL DE 2017)


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