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sábado, 1 de abril de 2017

**BANALIDADES GRAVES E SUNTUOSAS** - PINTURA: Graça Fontis/CONTO: Manoel Ferreira Neto


Bons dias!

Era uma vez um vereador, demagogo, chamado Alfredo, o qual em cosmografia professava a opinião, rangia os dentes, tirava as vestes e pisava em cima, armava o maior barraco, rodava a baiana em contrário, de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia poder para a o povo. A sua plataforma de candidato às eleições estava nesse bordão: “Eu sou vós; vós sois eu”. Com ele, noutra eleição, tornou-se presidente da Câmara Municipal.
Eleito, declarou que, para maior lustre de sua pessoa e do cargo que ocupava, passaria a chamar-se, ao invés de Alfredo, Alfredão. Sob conversas em todas as esquinas da cidade, elogios os mais empolados – o que não conseguira realizar em sua gestão de simples vereador, tendo encontrado pela frente, de costas, de lado, inúmeras oposições, inimigos correligionários, para um deles esteve quase chamando a polícia na Câmara, de tanta pressão que estava sofrendo, só não o fez porque é um órgão público, sobremodo comprometedor a polícia lá; colocou-o para fora do gabinete, quase aos murros e pontapés; presidente mandava e não pedia, ordenava e não solicitava; o povo chegaria ao poder -, sentiu-se o grande, o máximo, o maior dos políticos em toda a história daquela comunidade.
O poder desmiola quaisquer mentes, tempo das grandes banalidades graves e suntuosas para consagrarem e abençoarem as condutas, posturas. E quando não se tem qualquer coisa a fazer, inventa-se, cria-se, institucionaliza-se asnices as mais variadas. Desmiolar o que não tem miolo é impossível, soa aos ouvidos uma cretinice das mais divinas. Miolo Alfredão não tinha, e para mostrar ao povo que estava equivocado com este juízo a seu respeito começou a sua trajetória de presidente criativo.
Como era careca desde tenra juventude, decretou Alfredão que todos os vereadores fossem igualmente carecas, ou por natureza, como ele, ou por máquina a zero, e proclamou este ato em razão de princípios políticos, isto é, que a unidade moral do Estado exigia irreversivelmente a conformidade das cabeças. Ordem de Alfredão, se não cumprida à risca, tinha graves conseqüências, o homem sabia ser autoritário, ditador, além do descrédito do povão, os jornais sensacionalistas publicando suas matérias acintosas, os podres todos nas linhas bem traçadas; ele mesmo colaborava com os editores que, porventura, não estivessem a par de alguns pormenores da pessoa na pauta das críticas ácidas, elencava para eles sempre as coisas particulares e íntimas, sobretudo aqueles que pulavam a cerca sem dó nem piedade, sem qualquer medo de as esposas desconfiarem, o povo mandar a pua. Lá foram os vereadores, um a um, à barbearia de Praxedes rasparem as cabeças, deixá-las brilhando, expostas ao sol escaldante de todos os dias. Não se podia usar boné, isto era contra a unidade moral do Estado. Outro ato em que revelou igual – não sei se diga “sapiência”, não sei se diga “sabedoria”; indeciso, prefiro dizer “sabedoria da sapiência” – foi o que ordenou que os vereadores cortassem os bicos dos sapatos do pé direito, sem alteração na sola, deixassem os dedos à mostra, dando aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele, enfim “eu sou vós; vós sois eu”, que padecia de um calo seco sem solução. Agora, imagine o leitor, os vereadores carecas, de terno e gravata, o pé de sapato direito sem bico, que cena excêntrica, exótica.
Passava a tarde inteira em sua cadeira giratória na presidência da Câmara Municipal espremendo os miolos para outras criações, invenções. Paletós com as mangas cortadas, esfiapadas, só a manga comprida da camisa, impensável, o povo iria dizer que suas intenções eram de fazer do órgão público um picadeiro de circo, pane et circense. Havia colocado os óculos sobre a mesa para coçar os olhos, pois não tinha dormido minuto sequer à noite, estavam vermelhos, ardendo com a falta de sono, passara a noite elucubrando invenções para os seus quatro anos de presidente. O uso dos óculos redondos não se explica de outro modo senão por uma oftalmia que afligiu a Alfredão, logo nos primeiros seis meses de sua gestão de vereador. A doença levou-lhe um olho, e foi por esta razão que se revelou a vocação poética de Alfredão, porque, tendo-lhe dito uma das secretárias, chamada Õmega, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, - comparação que muito o lisonjeou, sentiu-se o único político-poeta da comunidade, faltava-lhe fazer versos. O vice-presidente, Beta, que amava ridicularizar Alfredão com suas vaidades de grande político, de homem orgulhoso de sua estirpe de personalidade máxima aproveitava todas as oportunidades que se lhe revelavam para este objetivo, deu um passo à frente, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Não dera outra coisa: ordenou que todos os vereadores usassem óculos redondos, a lente esquerda escura, através dela não se enxerga nada. Houve algumas contestações dos vereadores, que besteirada era aquela, não sofriam das vistas, não haviam perdido um olho devido a oftalmia. Eles não eram ele e ele não eram eles. Contestação vã em razão de suas chantagens, ameaças. Carecas, bicos de sapato do pé direito cortados, mostrando os dedos, óculos redondos, a lente esquerda escura...
A sua namorada, Heloísa Brandão, fazia os seus versos, nas horas de folga, na clínica oftalmologia Santa Luzia. Era ela prendada, educada, graduada em História pela faculdade, cultivava a música e a poesia, amava os cantores da Bossa Nova, amava os poetas do modernismo, especialmente Carlos Drummond de Andrade; era requestada por alguns políticos para um poema sobre eles, seus sonhos e utopias, suas esperanças, suas sensibilidades e sentimentos nobres, isto era muito importante para eles, o povo veria que vida pessoal e vida política eram duas coisas ao extremo opostas, podiam cometer as maiores gafes na carreira, podiam praticar atos verdadeiramente absurdos e arbitrários, mas como homens a coisa era bem diferente, eram homens dignos de reconhecimento e consideração por suas idoneidades sentimentais e sensíveis. Heloísa tinha sua coluna no Diário da Comunidade, um tablóide semanal, onde publicava a sua obra poética, era bem aclamada pelos seus leitores, eram matérias de estudo nas escolas, os alunos babavam com o romantismo dela, seguiam à risca na vida o seu romantismo, era uma espécie de “clube dos românticos” com os poemas de Heloísa Brandão.
Em parceria com todas as instituições de ensino, promoveu um concurso literário. O aluno ou aluna que escrevesse o melhor poema sobre política, elogiando os seus feitos e obras sociais, seria agraciado com uma bolsa de estudo até a faculdade, não importava que não fosse eleito noutras eleições, a bolsa de estudo seria tirada de seu bolso, dinheiro não lhe faltava. Concorreram ao concurso vinte estudantes de todos os níveis de ensino, desde o médio ao superior. Um dos poemas foi julgado por Heloísa Brandão superior aos outros todos. Alfredão não aceitou o poema, pois que o aluno comparou a política dele com o seu calo seco sem solução, aliás com o título Calo seco. Anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro. Não queria de modo algum poemas de temas políticos, melhor seria se os alunos escrevessem poemas românticos. Por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que se empregassem só palavras eruditas, destas que não se usam mais, constam apenas de dicionários, foram esquecidas de todo ao longo do tempo. Não havia nenhum concorrente, mesmo da faculdade, que houvesse estudado os clássicos, quase ninguém ouvira ao menos falar o nome deles. O poeta que escrevera o poema indicado por Heloísa Brandão como superior aos demais, lera às pressas alguns poetas clássicos, os que pôde, tinha só um mês. O seu poema outra vez foi o melhor. Alfredão de novo anulou esse segundo concurso, sua justificativa foi que o poeta achincalhou a sua sensibilidade com o bordão “eu sou vós e vós sois eu”, que usou como estribilho; vendo que no poema vencedor as máximas latinas davam singular graça aos versos, contrastavam com o estribilho, revelando intenções jocosas, decretou que no novo concurso ninguém mais usasse erudição nos poemas, só se poderia usar palavras modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do poeta.
Alfredão, soltando os cães de tão furioso, abriu-se com o vice-presidente, pedindo-lhe sugestões inteligentes para o concurso, precisava dar a bolsa de estudo, com isto conquistaria a confiança das escolas, “os políticos vão e a cultura fica”, ela é que abre o desenvolvimento e progresso em todos os níveis, um povo poético, culturalizado, faz singular diferença nos destinos históricos e políticos. Se não desse a bolsa ao poeta, o seu bordão cairia do galho, perderia a confiança de todos, estaria aniquilado.
- Alfredão, a minha idéia é que você mande recolher das escolas todas as obras de poetas clássicos, todos os dicionários, e se encarregue de compor um novo vocabulário. Você não gostou das máximas latinas. Você não gostou dos termos modernos, da moda mesmo. Os alunos carecem de novo dicionário.
Alfredão com sua namorada Heloísa Brandão por três meses, dia a dia, de seis horas da tarde às três da manhã, prepararam o novo dicionário que seria usado pelos alunos para escreverem o poema da vitória, e mais, como adendo no dicionário, poemas de Heloísa Brandão com as novas palavras, que serviriam de inspiração aos alunos. Decretou o novo vocabulário, o uso dele em todas as escolas, seria a língua oficial daquela comunidade, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a confiança das instituições de ensino, dar a bolsa de estudo. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita, ninguém entendia ninguém, não estava havendo qualquer tipo de comunicação.
Dera Alfredão noventa dias para o novo concurso e foi recolhido trinta poemas. O melhor deles, apesar da língua absurda, foi do mesmo poeta, juntamente com o vocabulário novo usou os ditos populares referentes à política, uma verdadeira crítica às banalidades graves de Alfredão. Alfredão, alucinado, mandou expulsar o poeta da escola, aluno desta índole era uma pedra no sapato do sistema.
Desgostoso de conquistar a confiança das instituições de ensino, de premiar o vencedor do concurso, encerrou-se por quinze dias no gabinete da Câmara Municipal, lendo a política de Aristóteles, passeando ou meditando sobre os seus próximos passos na política, o que mesmo iria fazer para executar com eficiência os quatro anos de gestão como presidente da Câmara Municipal.
Parece que a última coisa que leu foi um poema do poeta Jaime França, e especialmente estes versos, que parecem feitos de encomenda:


Por onde andar, mil acusadores
Haverão de espreitá-lo,
Vituperando-lhe os passos,
Insídias e cavilações,
Aos quais ele, simplesmente,
Adoraria aniquilar,
Num esforço sorrateiro e contínuo,
Para atingir tal intento.


Aérton Gonçalves Lacerda


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE ABRIL DE 2017)


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