Total de visualizações de página

sábado, 1 de abril de 2017

**AOS PEDAÇOS TÃO EM BREVE** PINTURA: Graça Fontis/CONTO SURREALISTA: Manoel Ferreira Neto


A espingarda me fora emprestada por seu Quincas Barreiros, garantindo-me que era boa, não falhava tiro, que, de mim, só depende a pontaria – sorrira, perguntando: “Meu rapaz, você sabe atirar?” - mas tomasse cuidado, com armas não se brinca. Estava eu passando uma semana na sua fazenda, resto de umas férias que a firma me devia, queria ficar longe da cidade, de cervejas e conversas sem sal e tempero nos bares, após o expediente, ir para casa, jantar, assistir ao jornal, dormir, para levantar cedo para começar a trabalhar. Tudo só rotina, eu estava cansado. Havia três dias que havia chegado. A princípio, tudo era novo e maravilhoso. Nadei no rio, pesquei, andei a cavalo, levantei cedo para tomar leite tirado no peito da vaca na hora. “Quê vida linda é a de uma fazenda. A vida em cidade grande não tem o menor sentido”, pensara inúmeras vezes, divertindo-me. Já estava ficando enfastiado com as novas rotinas, já estava pensando em voltar para a cidade. Tinha de encontrar outra coisa a fazer. Resolvi caçar. Para dizer a verdade, eu nunca havia caçado antes. Vesti uma calça larga de brim cru que comprara, também uma bota de cano largo. Vestido à categoria para uma caçada. Era uma aventura nova e primeira para mim, já me sentia antes da hora excitado.
Fui andando pelo campo, passos lentos, compassados, olhando em todas as direções, sentindo a tranqüilidade e serenidade da natureza, os calangos nas pedras, algumas cabeças de gado pastando. Em breve, entrei num pasto raso e segui em direção de um bosque que ficava à soleira de uma colina. Sentia-me alegre e saltitante, uma aventura dessa pela primeira vez modifica os sentimentos e emoções dentro. A espingarda pendurada no ombro, em sentido vertical, o cano para cima, a mão direita segurando na alça, o pensamento solto voando nas nuvens... Andava de cabeça baixa, prestando atenção no chão, certo medo de tropeçar e cair, a espingarda disparar tiro.
Menino de cidade, adolescente de cidade, agora rapaz (vinte e cinco, quase vinte e seis), passando uma semana em casa de amigo de minha mãe, no interior. Fazenda maravilhosa, gado bonito, na maioria nelore, zebu de raça. Jamais tinha eu vivido qualquer experiência parecida. E lá numa fresca tarde me deu na telha sair à caça, apanhar uns jacus e umas perdizes, coisas que eu só conhecia de nome, por vir fotos em revistas, às vezes nalgum programa de televisão, por ouvir falar. E lá ia eu por inteiro embevecido no meu deleite, feliz da vida com a nova experiência, até que penetrei no bosque. Sentei debaixo de um abacateiro, coloquei a espingarda no chão, com o cano virado. Qualquer ruído era inusitado, estranho para mim, e mais de uma vez me preparei para o tiro... sem ver o alvo. Uma pombinha isolada do bando pousou num galho tão alto que sentia a distância não dava para o alcance da espingarda. Depois foi um periquito tão lindo que não tive coragem de fazer-lhe mal. Veio-me na memória, ainda criança, no alpendre de minha casa, vi um pardal assentar-se na galha de uma jabuticabeira, apanhei uma pedra, atirei, certeira a pontaria, não matei, o pássaro esperneava no chão, aproximei-me, toquei-lhe na cabecinha, recuperou-se, deixei-o voar. Tive remorsos. Não mais fiz isso. Rolinhas e sabiás ou joões-de-barro, encontrei-os aos bandos e o bosque era tão lindo com eles vivos, pipilando e valsando. Decidi voltar à casa da fazenda.
Mesmo sem matar nada, sem levar nenhum troféu, voltei alegre e saltitante, o coração pulsava mais acentuadamente, a espingarda inútil com um cartucho inútil, sem detonar. Saindo do bosque, o pasto raso estava todo invadido pelo rebanho. Na minha trilha postava-se um touro enorme, de chifres descaídos como punhais paralelos. Como são misteriosos os olhos do boi, naquele seu modo estranho de olhar a gente, ao compasso monótono do seu mastigar o capim fresco. E agora? Sigo em frente ou volto e subo a uma árvore? Por certo que seria desonroso, vergonhoso, ter que admitir o medo àquele grandalhão que eu tinha a me olhar pela frente. Já havia escutado falar que diante da fera não se pode demonstrar temor, que é pior. Se um cão late, ameaça atacar, é ficar quieto, não ter medo, aí ele não ataca. – Senhor, meu Deus, comecei a rezar baixinho. Fiquei mais apavorado, porque o boi andou três passadas na minha direção e porque me lembrei do fogo do inferno aonde eu iria parar aos pedaços tão em breve. Neste instante, outras reses se aproximaram do touro, todas olhando na minha direção. Comecei a gelar dos pés para cima; um torpor frio foi-se apoderando do meu corpo lentamente como se estivesse sendo mergulhado num poço de gelo. Era atirar na direção das reses, do touro, mas lá eu lembrava que tinha uma espingarda dependurada no ombro; lembrei-me, mas pensei que se o fizesse iria instigar a todos a me atacarem. Senti uma ventania em rodopio a envolver-me como se eu próprio girasse como um pião. No giro que todo me envolveu, senti-me esticando, engrossando e retorcendo como uma corda, e fui crescendo e subindo e abrindo os braços como um cruzeiro enorme plantado no chão.
O que iria fazer? Sair correndo? Podia tropeçar, cair, a arma disparar um tiro; não sabia correr no campo aberto, não tinha quaisquer costume em fazer isso, as reses me pegariam. Meu Deus! Olhei para baixo e eu realmente estava enterrado no chão e senti-me em firmeza, fixado ao solo por potentes raízes que sugavam a terra com a velocidade de uma sonda de petróleo, e aquela doce seiva como um sangue milagroso fortalecia meu dorso agora transformado em tronco, atingia-me os braços transformados em galhos, e chegava-me aos cabelos, metamorfoseando-os em ramos e folhas e muitas folhas e ramos.
O sol começava a roçagar o horizonte e projetou a minha sombra sobre a campina rasa. Foi então que pude enxergar-me por inteiro e ad-mirar-me da minha beleza e da minha potência; era eu um enorme jacarandá, altivo mas solitário. A noite se espreguiçava nos montes. De repente, todos os pássaros que eu havia visto no bosque, e eram não só o periquito, pombinha e os joões-de-barro, mas muitos outros de espécies variegadas e luxuriosas como catataus, canários, cabeças-de-fogo, belgas, sabiás, rolinhas, pintassilgos, vieram em revoadas, aos gritos e ao ruflar de asas, e se abrigaram nos meus galhos, de forma que eu fiquei coberto deles como se eles fossem meus frutos, dependurados em mim, formados de minha seiva e de meu sangue. Ao pé de mim, também se abrigaram as reses e o touro antes tão ameaçadores e agora deitados sobre mim, a ruminarem de olhos fechados como um sonâmbulo inofensivo.
Pela manhãzinha, vi chegarem seu Quincas Barreiros e mais dois de seus capangas em atitude de quem por mim procuravam, estavam preocupados comigo. Saí à tarde do dia anterior, era manhãzinha fresca, o sol começava a sair, não tinha ainda voltado para casa. Pararam extasiados e discutiram porque não se lembravam de tal árvore ali, defronte do bosque, bem no meio do pasto. Que árvore era aquela? Já tinham passado diversas vezes por aquele lugar, nunca perceberam a existência dela. Não era possível! Um dos capangas subiu por mim a cima e apanhou a espingarda que seu Quincas Barreiros me emprestara para ir caçar, e que se encontrava pendurada pela alça num de meus galhos.
- Seu Quincas Barreiros, a sua espingarda está aqui!
Seu Quincas Barreiros olhou por todos os lados, dizendo:
- O que aconteceu com Jorge Lima? O que vou dizer para a sua família?
- Vamos continuar procurando, deve de ter se perdido, patrãozinho!
- Vamos continuar procurando... – respondera seu Quincas Barreiro.


(**RIO DE JANEIRO**, 01 DE ABRIL DE 2017)


Nenhum comentário:

Postar um comentário