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sábado, 1 de abril de 2017

**A SABEDORIA LETRAS MOVE FÁCIL** - PINTURA: Graça Fontis/CONTO: Manoel Ferreira Neto




“Mais ágil que todo o movimento é a sabedoria:
ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza” (Sabedoria, 7,24)

“Se queres discutir, defina os termos” (Voltaire)


Cretino Babado chegara a Serra das Águias, num Domingo de Páscoa, tendo já alugado um pequeno casebre num bairro mais afastado do centro. Em princípio, as pessoas acharam aquele homem um tanto estranho e esquisito. “Se isto é nome: Cretino Babado?!” Assim estava escrito em sua Carteira de Identidade. A sua identidade. Fazer o quê? Não conversava com ninguém, incapaz de dar um bom dia a quem encontrasse pelas ruas. Alguns comentários surgiram, mas compreenderam que ainda não havia se adaptado, era desconhecido, com o tempo se abriria, adquiriria seus amigos e companheiros.
Pela manhã, por volta das seis e meia, saía para uma caminhada, sempre de cabeça baixa. Voltava às sete e quarenta e cinco, quando tomava o seu banho, apanhava sobre o criado a sua pasta, indo tomar o seu ônibus. Com o passar do tempo, havia pessoas que acertavam os seus relógios – não imitando o autor da Crítica da Razão Pura, Kant, através de quem as pessoas também acertavam seus relógios, por Cretino Babado nem saber de quem se trata - de acordo com os seus hábitos e costumes, não só pela manhã, mas ao final da tarde, quando retornava do trabalho, dirigindo-se a um barzinho, onde tomava uma cerveja, lendo os jornais. Conversar mesmo, cumprimentar as pessoas não acontecia, o que irritava alguns por compreenderem que era uma desfeita – quem era ele para se julgar assim tão importante? Devido aos seus comportamentos, algumas pessoas procuraram até saber em Monte Velho, onde ele trabalhava. Verduraria Suiça como Caixa. Não era de se assustar com tais procedimentos.
Cretino Babado, mesmo em Monte Velho, não conversava com ninguém, não cumprimentava ninguém, um homem absolutamente silencioso. Chegara calado à cidade e provavelmente sairá mudo. Só abriu a boca no início por necessitar de um emprego para se sustentar. Ao conseguir o seu emprego na Verduraria Suiça, foi bem direto com o sr. Imbecil Ribeiro: “Meus documentos estão aqui, mas não revele a ninguém de onde sou. Pouco importa a quem quer que seja”. De sua vida nada se conhece, nada se sabe.
Cretino Babado estava sentado em seu botequim, tomando a sua cerveja, lendo o seu jornal, quando entrou uma moça de aproximadamente uns dezesseis anos. De imediato, numa outra mesa, duas adolescentes gritaram logo: “E aí, Rosana, gostou de Monte Velho? Aproveitou suas férias?” A mocinha de imediato respondeu, parando no meio do botequim, fazendo os seus gestos com os dedos indicadores sobre a cabeça, erguendo a perna esquerda: ‘Se eu tivesse um par de chifres, soubesse dar coices, com certeza, seria recebida com honras de chefe de Estado”. Cretino Babado observou bem aquela situação. A mocinha, percebendo, ficando desajeitada e “oratisada”, indagou: “Desculpe, moço, o senhor é de Monte Velho?!”.
- Fique à vontade, mocinha... Não sou, mas concordo com você.
Todos riram com as suas palavras, por conhecerem bem a fama de Monte Velho, a agressividade e grosseria das pessoas, mas Cretino Babado mesmo voltou a ler o seu jornal, afastando-se por completo de qualquer outro comentário. Foi a única vez que abriu a boca para dizer alguma coisa em Serra das Águias.
O jornal local, Movimento Contrário, em seu Fatos e Cousitas, Coluna de Crônicas, fundada por Justino Capão, chegou a comentar sobre esta passagem, com o seguinte título: “O silêncio não tem chifres”, por achar uma novidade a presença de espírito da adolescente, referindo-se aos gestos e atitudes, aquando lhe perguntaram se havia gostado de Monte Velho; estava Cretino Babado em absoluto silêncio, apenas observando.
“Isto porque o próprio gerente, Simão Bacamarte, assim chamado, o nome verdadeiro é Justino Capão, que, com certeza, nada sabe desta personagem de nossas letras universais, (se soubesse, esconjuraria seus pais, devido à simbólica do seu nome próprio, não ao nome do personagem de Machado de Assis), quem acha que todos têm suas passagens ridículas, devendo ser publicadas...”
Cretino Babado lera a matéria. Se havia alguma setinha apontando-lhe, não conseguira descobrir, não entendera assim. Entendera que não tem senso algum o que estava escrito; enfim, o artigo apenas construía um castelo de suspeitas sobre as palavras.
Aliás, após dar um longo trago em seu cigarro, olhado ao redor para ver se alguém estava percebendo o seu tédio juramentado, descobrindo que ninguém percebia que ali estava, vazia a mesa, “fora de sua intenção não se relacionar com as pessoas senão estando a trabalhar, atendendo aos fregueses, sério e decidido tratava apenas dos negócios, e ninguém me incomodou por esta razão”, até se regozijando por não lhe perceberem a baforada seca e direta, “esvaeça-te no ar, sei lá por que meios, quem sabe os não causados”.
A decisão estava sim tomada vez por todas: só dá atenção ao que lhe interessa, ao que contribui para o crescimento e amadurecimento, às palavras em colunas de jornais, então, não se deve dar a mínima atenção, se ao menos fossem bem escritas, os autores fossem originais e autênticos com a própria linguagem e estilo, aí daria plena atenção.
Não entendeu bulhufas do que está escrito, ipsis litteris registrado na folha, sem mudança de qualquer vírgula. Obviamente, antes do que está aqui registrado houve um parágrafo anterior que talvez possa elucidar:
“Estava o botequim quase deserto senão o gerente, Simão Bacamarte, um senhor de cabelos grisalhos, tomando a cervejinha acompanhada de uma cachaça, lendo o jornal, duas jovens conversando, quase sussurrando. O senhor, indiferente a tudo e a todos, só ouvira, assim por acaso, acaso mesmo por nada lhe interessar, algo que lhe interessou de verdade, a menção à sua cidade natal”.
Após este parágrafo é que escrevera o que é ilegível, falta de senso e de ridículo, isso sem contar o senso de ridículo, é que inserira a passagem. Por que iria dar atenção a ridículos, se quisesse sim criticá-lo por que não tivera mais criatividade, mostrando a sua ironia. O que dizem as colunas sociais, os artigos em jornais, revistas, tablóides, enfim a “imprensa marrom”, não lhe diz qualquer respeito. Interessa-se por leituras verdadeiras, as que instruem, não constroem castelo de suspeitas sobre uma palavra, idéia, estilo. A imprensa escrita de nosso tempo deveria antes conhecer intimamente o caderno de duas linhas, aquele que melhora a caligrafia.
Se Simão Bacamarte escrevera isto com a intenção de causar alguma polêmica, enfim, a toupeira abrira a boca, enganou-se, porque Cretino Babado não deu a mínima para esta nota em seu “Fatos e Cousitas”.


Aérton Gonçalves Lacerda


(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE ABRIL DE 2017)


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