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quinta-feira, 2 de março de 2017

**OUTRORA... - IN "PARTITURAS DO ESPÍRITO** - 01 DE MARÇO DE 2017** - PINTURA: Graça Fontis/POEMA: MANOEL FERREIRA NETO


Sou a chama, clara e viva chama de vela de sete dias que sempre balança ao vento, não se apaga por milagre. Quiçá o vento que é leve alimente essa chama; sinto-me, é verdade sim, íntimo da brisa que a minha chama controla.
Na colina dos insurrectos,
Célere diapasão de notas
Re-colhidas e a-colhidas
Dos sibilos dos ventos,
Afinando fantasias e esperanças...
No pico dos hereges,
Vésper dá o tom noctívago,
Taciturno das melancolias e saudades...
Outrora, idade das sendas silvestres, em cujas veredas trilhava de passo em passo, amores e paixões na mente, utopias pulsando no peito, arfando as querências e desejâncias, curriculum vitae da história nas mãos feitas concha, nas retinas as imagens do amanhã, realidades, verbos de paz no coração.
Sonhos de compl-etude, sublim-idade, etude e idade, no silêncio da alma, solidão das palavras, cujos sentidos por virem se a-nunciariam na passagem do tempo, na continuidade das intenções e propósitos!
Outrora, idade do olhar aprisionado entre quatro paredes de tijolos simples, da janela de madeira, lâmpada acesa atrás dela, no canto esquerdo, ao lado um vaso de samambaia, suspenso na parede, olhando a estrela prisioneira no frio do instante, vigiava o coração secreto que no peito trazia, a noite luzente nas escarpas das colinas.
Quero as águas fervescentes e espelhadas de um riacho... Quero ver o céu transbordar de acontecências di-versas, de querências em ritmos re-nascidos, re-feitos, em líricas poiéticas nascidas de sentimentos de utopias, trans-cendendo as meras con-ting-ências do efêmero e fugaz, em enredos e musicalidade nascidos, em rimas inéditas, derramando seus suores face abaixo, corpo por inteiro, por cima da terra onde sobreviver é apenas um ato de ternura e esquecimento de vivência, onde viver outra coisa não significa, e todas as metáforas são inúteis para mostrar a beleza da arte, a arte da poiésis em sin-tonia com os verbos da prosa, as rimas da poesia em sin-cronia com a sonoridade das idéias e desejos reais, senão que trilhar as estradas do sim e do não, da verdade in-versa, da in-verdade real na sua vertic-alidade, da mentira e da fantasia na horizont-alidade do querer e do real-izar.
Quero as estrelas brilhantes mostrando caminhos por onde trilhar à busca da alma que assanha, eriça além dos cimos, além das serras, além dos picos. Quero o sol que brota das rotas madrugadas, derretendo a alma, fazendo dela esperma-cete. Quero esclarecer os planetas que falham ao decorrer do medo, no per-curso da angústia, no de-curso do desespero, que os abafam qual olhos de gato angorá cintilando no céu, brilhando nas suas nuvens brancas e azuis, apesar de serem ilusão de ótica, no firmamento negro e sensível da alma humana. Quero conciliar na córnea imagens bucólicas, não melancólicas e nostálgicas para lembrar Davi no seu pastoreio de ovelhas, ainda adolescente, nem os poetas do neoclassicismo compondo seus versos no pálido crepúsculo do inverno... das longínquas perspectivas a carroça repleta de saudade puxada insanamente por um jegue alado. E ainda continuo querendo!... Por sempre, continuarei querendo!... A querência continuará sendo por sempre.
Atrelo sonhos no jegue indômito que dispara e zurra e me entontece, dou rédeas às utopias dos instintos que cochicham, quando o rabo espicha, ao nada da contingência, quando o rabo inflama, deixam-me extasiado, olhando os coices, con-templando as ferraduras que deixam rastros em todos os solos, e ferram todas, só os índios são capazes de identificar e reconhecer: antigamente ele nutria escombros, restos, agora outro pasto o abastece, alimenta, nutre, enche-lhe o estômago, sente-se satisfeito, disposto para outras caminhadas, energias não mais se lhe esgotam, nenhuma manifestação de coice... se agora suas crinas eriçadas de prazer, de sorrelfas e buscas da morte que a vida esplende, que o vento e as potrancas voam em liberdade enluarada, remexendo suas lustrosas ancas. Outrora um trote cego e o arreio era cilício na cintura: a dor de esporas e látego e o freio.



(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE MARÇO DE 2017)


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