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quinta-feira, 7 de abril de 2016

COMENTÁRIO DA MINHA SECRETÁRIA, ESCRITORA E POETISA ANA JÚLIA MACHADO AO ROMANCE /**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XXX PARTE**//


**NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA**
Manoel Ferreira Neto.



A cómoda alheação quotidiana é validada pelo costume, pelos costumes não contestados. Segundo Sartre, todo o vivente brota sem causa, delonga –se por fragilidade e cessa por deparo acidental.
Toda vida cônscia vive como percepção de viver. Segundo Sartre, o ” SER” é culpado por aquilo que é. A emancipação da independência, elementar para o entendimento da axiomática sartriana do "ser-para-si", faculta que o sujeito conceba suas grandezas. E a grandeza da existência é o rumo que cada um elege para si. Em que o homem é proprietário do inerente desígnio e sua vida é determinada por suas actuações.
A agonia do oco é concebida por cada um….os trilhos que pretende calcorrear.
Como sempre, Manoel não consegue fugir à doutrina do grande Sartre.



Ana Júlia Machado.



*NÁUSEA DO VAZIO/VAZIO DA NÁUSEA - XXX PARTE**



E outra vez sinto dentro de mim um poder excessivo, como se me visse subitamente rico e não soubesse o que fazer da riqueza.
A estrada que tantas vezes pisara na forma, amarrado à regra, corre agora aqui sob os meus pés libertos, diferente, com um certo ar íntimo de quem me esperasse em silêncio há muito tempo.
Olho as árvores e sinto descer delas um olhar vivo e fraterno. Paro junto de uma, corro, devagar, os meus olhos pela sua casca rugosa, e é emocionado que a sinto do meu destino, irmanada às árvores da minha terra distante. Lentamente a manhã vai-se abrindo em leque por todo o horizonte, debruça-se, suspensa da altura do céu. Um grande arco de triunfo levanta-se de pólo a pólo e eu passo por baixo dele, silencioso, mas investido de uma glória antiga, como se passasse por um solitário arco de ruínas...
À noite, quando cheguei a casa, após ter saído para os afazeres quotidianos, mercearia, banco, açougue... Ah, sim, isto merece ser dito. Berenice incumbiu-me sistematicamente do açougue. Estava cansada de os açougueiros passá-la para trás, pedia uma qualidade de carne, serviam outra, e, além do mais, não gostavam de tirar as "mochibas". Açougueiros não me passam para trás, e eu exijo categoricamente que a carne seja limpinha. Não precisam tirar bifes, tiro-lhes eu. A carne fica toda por minha conta exclusiva. Tiro os bifes, tempero, frito; se se trata de carne assada, sou quem tempera também.
Chegara a casa, encontrando Berenice nervosíssima, gritava a plenos pulmões palavrões. Até me assustei porque não é disso: de palavrões.
- Benzinho, o que está acontecendo? - olhei no chão, livros, papéis. - Passou um furacão por aqui?
- Tinha escrito uma coisinha para você, amor...
- Sim... e daí?
- Daí que perdi o escrito.
- Perdeu como?
- Escrevi no computador... Não sei o que aconteceu... Antes de salvar, o texto desapareceu da telinha. Foi isso.
- Você mexeu nalguma coisa do teclado, ocasionando a perda.
- Não sei. Estava muito feliz. Falava sobre o meu amor por você.
- Jogar tudo no chão, gritar, esbravejar, ruminar palavrões à revelia não vai resolver a perda do texto. Já me aconteceu isto muitas vezes. Perdi textos importantíssimos. Fazer o quê?
- Fazer o quê? Amor, sabia que não se escreve outro.
- Não se escreve o mesmo, mas se escreve outro. E, por vezes, fica até melhor que o perdido.
- Está bem... - abraçou-me, beijou-me o pescoço, deitou a cabeça no meu ombro - Meu amorzinho, era muito importante o que escrevi, O meu amor por você todinho escrito.
- Benzinho, deixe estar... Ainda está nervosa. Quando se tranquilizar, escreva outro.
- Vou tentar...
- Não vai à faculdade, Berenice?
- Não vou hoje. Não são aulas importantes. Quero ficar com você.
E fomos comer uma pizza no restaurante Tarantella. Sentiu inspiração. Pediu à garçonete uma folha de papel. Deixei-a escrever à vontade.



Manoel Ferreira Neto.
(07 de abril de 2016)


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