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quinta-feira, 7 de abril de 2016

COMENTÁRIO DA AMIGA Rosangela Almeida da Costa AO TEXTO /**SARAPALHA DE VEREDAS E MEMÓRIAS**//


SARAPALHA DE VEREDAS E MEMÓRIAS
Manoel Ferreira Neto.



Lembranças fazem parte de nós, daquilo que nos moldou, o que somos hoje, os sonhos, ah esses nos trazem esperança, é o que nos mantém longe de um completo vazio



Rosangela Almeida da Costa.



**SARAPALHA DE VEREDAS E MEMÓRIAS**



Se ontem, nos pretéritos da memória, mergulhei fundo na fonte de águas cristalinas, na lareira de chamas ardentes, sentindo o momento da re-velação delas, aquele desejo de saciar a sede do inaudito da vida, o êxtase da humanidade do ser, agora desfruto a alegria indizível da madrugada fria, de chuva, sentindo-me mais forte, é preciso sonho para cumprir a vida, é preciso esperança para a sabedoria de ser.
Se ontem não fui capaz de compreender porque sou homem de letras, se me perscrutando vi o corpo de carne e ossos, isso teria fim, seria cinza, agora vejo com transparência o que amigo disse com isto: trago em mim dentro o vir-a-ser de esperanças do sabiá cantando, o gado berrando nos campos áridos, íngremes do sertão... sertão de utopias, sertão de travessias.
Se ontem, num botequim de esquina, na hora de pagar a conta, perguntei ao proprietário como ficava o troco que me dera se considerasse os "noves fora zero", em resposta dizendo ser eu cheio de gracinhas, falando eu ser artista, tendo de carregar as gracinhas na minha mochila, agora só sei que o zero do fora é viver de nada absolutizando o vazio, o fora do zero é sobreviver de instantes efêmeros e momentos fugazes, e na cripta inscrito com letras garrafais: "Os nove fora de minha vida foram o vazio das esperanças".
Se ontem a sombra projetada na amurada me fora luz para iluminar os ideais de um vir-a-ser de espectros refulgentes, quero agora cometer o pecado da carne, sentir prazer do gozo, esquecer-me dos idéias da alma.
Se ontem a lâmpada de meu quarto de dormir queimou, dormi no escuro, sonhei com uma caverna de diamantes brilhantes, sentei-me à soleira de entrada, após sair sem única pedrinha no bolso, numa rocha, pondo-me a con-templar o arco-íris que riscava o céu de infinito a infinito, desejo agora estar simplesmente jantando uma canja de frango, tomando um aperitivo, ouvindo uma criança chorar na casa vizinha.
Se ontem me senti amado e querido, quando minha namorada beijou-me a pontinha do nariz, virando-se para o seu cantinho, dormindo, agora a vontade é de pintar uma tela de janela aberta para o campo, dois pássaros brancos pousados num galho seco de árvore, e durante a arte de pintar sentir no âmago de mim o pretérito de estar sempre caminhando em direção ao pleno, o vir-a-ser de estar humanizando os sentimentos de amor e do belo.
Se ontem, enquanto afiando uma faca na outra, para cortar uma picanha assada em pedacinhos finos, lembrava-me de uma professora que me mandou sair da sala de aula por estar sujo de sangue, trabalhei o dia inteiro no Açougue Esperança, não tive tempo de me banhar, trocar as vestes, e sonhava ser um homem de grande conhecimento, agora estou sentindo a felicidade de com a faca da arte destrinçar os mistérios da vida de ideais.
Se ontem ri de minhas picuinhas, acompanhadas de achaques e pitis, ao passo que pretendia verter lágrimas contundentes, hoje estou tomando banho e cantando: "Josefina foi ali/Foi catar capim/Para seu Joaquim".
Se ontem cri piamente na escuridão qualquer capeta é Deus, hoje afianço que no crepúsculo qualquer deus é o capeta às avessas, isto porque abri a janela sentindo no peito uma sensação de indiferença a tudo neste mundo.



Manoel Ferreira Neto.
(07 de março de 2016)


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