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sábado, 9 de abril de 2016

AVE-MARIA!... SILÊNCIO ÍNTIMO DO - AMOR Manoel Ferreira e Ana Júlia Machado.


Desejo da verdade, redenção. O íntimo possa iluminar-me. Intuição de que há muito a ser revelado, de que há demais a sentir e con-templar. Símbolo e representação do sonho da harmonia entre a Vida, as palavras, entre a vontade do sublime e graça, cheia de sonhos e necessidade de paz.
Ah, esta vocação do sublime tomou-me por inteiro! Lembrou-me haver sentido frio e vento perpassarem-me a coluna vertebral. Os olhos senti-os faiscarem. Creio que desejei fossem habitar o que percebera e intuíra verdadeiro, pleno de compaixão e misericórdia.
Bato à porta. Abre-se. Entro e sento-me. Luz oblíqua, indireta, fragmenta-se nos cálices de champagne sobre a mesa, em estilhaços de vidro que brilham imenso. A um canto bebo num cálice delicado, esforço-me por alinhar as mãos finas com... O cálice tinha um pé fino como estilete.
Sem o desejar, sou quem quebra limites, esperanças, os vários ancoradouros que, com esmerada paciência, tinha estabelecido no decorrer da infância, através das orações, histórias recontadas da Bíblia. Não creio seja inútil preparar-me para a morte, como se pudesse acontecer agora à busca da pequena choupana de paredes azuis, criada no espírito, símbolo da espiritualidade que deseja re-novar-se. Mesmo que a vida se prolongue por anos, não creio esteja maduro para enfrentar a travessia serena da passagem. Isto acontece com os seres que despertaram para a Vossa Graça, Misericórdia.
Que me falais? Dizeis-me? Tudo tem de ser criado. Sou triste, tenho dó enorme de mim. É dó tortuoso, cheio de truques, ciladas, tripúdios. Parte de mim para Vós, para os Vossos olhos sem sono, fundo; dá a volta através deles por todo o passado vazio, regressando a mim.
Medito, Senhora, sobre o processo da morte de modo a aprofundar o conhecimento do espírito. Sim, devo bem refletir sobre a velhice, morte, pois serão elas a mostrar-me o significado. Tornar-me-ei forte, determinado a mudar o bendito fruto do ventre.
Renascer é inevitável. Único estado a permitir realizar o despertar de pecados, culpas, remorsos. O raio almíscar, gelatinoso de nada, esvoaçante nas dobras de cortina adocicada: alçar vôo no tudo, nada, imensidão de brisa serena. Bailarina passando no fundo dilacerante de asas e sussurros, de leve brisa de silêncio. Gemido na noite plena.
Mas é com vocábulos, que eternamente induzirei metamorfosear a interpretação de Universo, e instalarei a todos a autêntica significação de querença, não obstante, sim bem-querer seres, e mais seres para poder findar com essa erradamente questão que ainda subsiste.
O que desabrocha, floresce e dá frutos, sorrindo ao Sol, universo, é a semente que se tornou árvore. Pode triunfar porque o húmus, fecundo, lhe deu os nutrientes. Triunfa a águia por abrir caminho para frente.
Algo é mexido em profundidade, como se mão entrasse em mim, movendo sentimentos que preferia nas gavetas. O olhar compadecido diante da janela, cujo vidro não reflete imagens; alguém de pé, empurrando com a esquerda a cortina. Assim parado, querendo não estar. Em silêncio, desejando ouvir vozes... Com todas as lâmpadas da casa acesas e ainda faltando luz. É madrugada - a porta de meu casebre está aberta, são quase cinco horas da manhã. Não corro riscos. A janela também está aberta. Quero sentir o friozinho.
O tempo é de salvação. De não estar sozinho. De sentir o Vosso aconchego. De escutar Vossa voz, capaz de deter o mal, interromper os processos de destruição da vida. A vida, festa; nela os convidados estão felizes e riem do prazer que sentem - não é para chorar, é para ser feliz, sentir a vocação da felicidade. Haverá alguém quem estende a mão, voz que responderá com carinho, socorrendo nas solidões e carências.
Após muitos anos,
Acho a razão,
E entendo que instantes de alegria foram gastos,
Por um intelecto que afiançava uma incerta justeza.
Um dia des-cubro que a inteligência
Cotovelou meus pressentimentos e extraiu sua causa,
Submergiu minhas emoções numa imensidão designada quimera.
Um dia a tormenta transpõe,
E capacito que tudo na existência tem sua importância.
Mesmo todos os percalços que se cruzam com os homens
Mesmo que aparentem ser nonadas
Mas que possuem um fundamento
E melhor do que ninguém descubro que o apreço da felícia é erudição do que é viver,
É próprio do espírito sentir e experimentar dentro de si, como ressonância, todos os seres e o Ser. Lamento nada poder dizer-Vos, Senhora, rejubilante, porque o amor que age, comparado com o contemplativo, é algo de cruel e atemorizante. O amor contemplativo tem sede de realização imediata, atenção geral. Chega-se a ponto de dar a vida, com a condição de que não dure muito tempo, tudo acabe rapidamente, como no picadeiro, sob os olhares e elogios. O amor atuante é o trabalho e o domínio de si, e para alguns, toda uma ciência.
Até mesmo o deserto adquire sentido? Sobrecarregá-lo de musicalidade, ternura. É lugar consagrado por todas as dores do mundo. Mas o que o coração reclama, ao invés disso, são lugares destituídos de poesia.
Sou chamado a participar da vida, muito além dos desencantos, desencontros; levá-la a beber da água da graça. Alimentá-la do seio da paz e não permitir dores a coloquem em dúvida. Tendo sido confiada a nós pelo Senhor, ela bem que requer esmero. O ensejo que deve vestir a vida não pode se esquecer de que, embora tantas marcas de espinhos, a tiara deverá ter as belas flores do campo.
Se não erguesse os dedos, fizesse um gesto, estrangularia a verdade. Diria: “O jarro quebrado, quadro desbotado, pobre trinco...” Possível fosse nota de violão, constituindo qualquer som, não música para mostrar o barulho final destas palavras. Creio que seria capaz de revelar o como as coisas tremelam.
Flor de desejos e rosas de sonhos... A casa, pouco recuada, de frente para a rua. A pintura azul está queimada de sol, e a parede, em conseqüência da chuva e do sol, bem estragada. Há lugares escavoucados. Entre a grade e casa, jardim, grama. Quase todas as espécies de rosas estão ali plantadas.
A vida acontece no quarto. Desenho céus tristes nas paredes frias. E lá fora, inda que seja verão, juro ouvir chuva. O inverno parece nunca ir embora. Falta-me estrela a levar-me ao coração da vida, onde abraço os dias, em adoração e inocência, além das paredes e das vozes que me querem prisioneiro. Jogo ao chão as letras, as rudes muralhas. Apontam-me o verdadeiro céu. Seguro a mão e com elas caminho pelo jardim. Sempre, além da aparente chuva, aguarda-me o sol... As flores vestiram as melhores cores. Os soldados pararam de atirar. O vento esqueceu as folhas. Ouço o ritmar de passos usando sandálias. O mundo silencioso indaga-se sobre o que me falariam os homens, o que de Vós ouviria...


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