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sábado, 9 de abril de 2016

ÁGUAS CALADAS E PROFUNDAS - Manoel Ferreira e Ana Júlia Machado.


Os amplexos do silêncio infeliz...
É, sobretudo, no infortúnio que o silêncio abraça os homens. Abraço de compreensão e entendimento, promessa transparente de libertação - suficiente a fé. De ternura, certeza nítida de aconchego, sonho de traduzir as emoções - bastante o DESEJO pela vida. De solidariedade - cabe a entrega absoluta àoAMOR.
Pequena palavra surgida de súbito, em princípio, sugerindo que fora pensada para outras virem à soleira, dizerem suas verdades, modifica a linguagem, revelando perspicácia, acompanhada de vivacidade, para um mergulho profundo. A palavra fora “talvez”.
O que é isto de, talvez, os que mais conhecem os amplexos do silêncio fá-lo sob que águas caladas e profundas?!... Descansa a tênue camada da vida quotidiana. Disse-o antes. De imediato, surge em cena dúvida, desconfiança. Talvez quem conhece sabe o que significa, o valor que possui; quanto aos outros homens, não o sabem; a intenção é justamente despertarem para esta busca, sentir-se-ão felizes.
Não é que nunca tenha percebido os amplexos do silêncio infeliz em momentos de problemas enormes; problemas que, de todo, envelavam qualquer promessa de alegria, qualquer esperança em um futuro. Não restou outra alternativa senão a de mergulhar neles, repousando a face nas mãos em concha, e assim pôde constituir esta verdade: “É no infortúnio que o silêncio abraça os homens”. Desde então, em horas difíceis, entrega-se à reflexão, nos braços do silêncio, retornando deles apto a seguir jornada. Sente-se vivo, forte. Quem sabe ouvir os sinos silenciosos do Natal?!..., prenúncio seja de compreensão de que lhe cabe espiritualmente.
Sou alegre por olvidar a hora.
Afigura-se-me ser a egocentricidade,
A susceptibilidade clemente.
Todas as veredas acarretam-me a ela.
Requesto em mim a cadência de modinhas antigas.
Só me rememora o jeito nímio deficiente.
O fecho de que não me escureça, suspendo-me.



Intenciono-me ser, excluir-me de mim,
Aportar estacar no meu íntimo,
Ser ele,
Outorgando-me inteiriço.



Nulo aprazimento
Ajuízo-me impender a mim análogo.
Sendo o exclusivo a frui-la,
Componho-o tão-somente por ufania e embuste.



A fome de querença penetra mutuamente à retentiva do dédalo
Sujeito esquisito e comovente zoada abeira entre o arrebatamento.
As locuções, estilos, posturas,
Clamor afável e terno,
O físico é nostalgias absolutas e plenas
Da tonteira do espertar.



Apreendo agora o que anda sendo de mim,
Porque flúmens e abismos encontro-me a marear.
Paralelismo primeiro e interno,
Retentivas e anamneses de ocorrências.
Prezo mais os cimélios das planícies.
Apreendo ou me exorto
De que amadureceu estou,
Enfim,
Para talhe novel.
Para além de minha elementar tenção resido.



Só diante deste pensamento de “no infortúnio o silêncio abraçar os homens” pôde perceber não ser o silêncio que se sente infeliz, é o homem, e os abraços são que o torna feliz outra vez, pronto para continuar o itinerário à busca do sublime e do eterno. Mas não seria verdade também que o silêncio possa se sentir infeliz frente às situações, arbitrariedades, erros do homem consigo próprio? Aí, as vozes todas que habitam o silêncio calam-se, sequer um sussurro, cochicho, murmúrio.
As tristezas fazem-lhe agora sorrir e não sabe o motivo de, com este amor todo, do fundo da memória, chegar-lhe a imagem de um prado, ladrilhado de ardósia. Escapam à compreensão do olhar. Se a consciência reouver um instante de perspicácia, os contornos perdem-se.
Quer dizer que, às vezes, quando a carga da vida se torna demasiado pesada num mundo tão impregnado de intempéries, procura voltar-se para os abismos deslumbrantes da alma, onde tantas emoções novas e inocentes perduram-se intactas. Conhece-as bem demais para ignorar que são emoções eleitas, onde a contemplação e coragem podem equilibrar-se, onde o inverno e o inverso podem comprazer-se de virtudes plangentes e exaltar a força de seus encantos.
É inútil lamentar-se da tristeza, da solidão do espírito, basta trabalhar para si, para sua felicidade, e todo o esforço é para que a solidão e tristeza resistam aos ventos do mar pela virtude da brancura e da seiva. Porque esta é que preparará o fruto no inverno do mundo.
É preciso descer ao silêncio da memória e começar a garimpar diamantes perdidos. Um dia algo foi bom, verdadeiro, a luz do sol refletiu na pedra de diamantina e o reflexo deixou-lhe perplexo... Acha que o foi, pois ninguém coloca alguém a seu lado acreditando que o faria infeliz, embora possam querer e desejar o mais profundo, ninguém traz alguém para dentro de sua intimidade achando que iria sofrer. Por que agora se sente infeliz? Não será com o silêncio? É consigo próprio. Está carente de seus abraços. Se deseja que algo melhore, ele mesmo terá que começar esta transformação; a mudança começará por si.
Não se conscientizou do silêncio – lembra-se de aquando um amigo lhe sugeriu que estabelecesse silêncio diante das dificuldades e problemas os mais diversos possíveis, - pensando que não lhe entregaria ele os diamantes da emoção, sentimento, realizações, sonhos, utopias. Após esta consciência, pôde transformar as coisas ao redor, intuições e utopias da vida verdadeira; pode vislumbrar e contemplar os inúmeros diamantes, desde os menores até os maiores, nas duas mãos feitas em concha.
Numa experiência de tratamento por acupuntura, há um lugar específico na testa que, ao colocar a agulha, não saia sempre um pouco de sangue, e, com ele, não saiu uma ínfima gota, e quem estava aplicando o tratamento se admirou bastante com a força de seu espírito, perguntando-lhe se tinha consciência dela. Respondeu que, por vezes, tinha esta consciência, por vezes, não a tinha. Dependia de seu estado emocional, psíquico. Era verdade sim que diante de tantos sofrimentos e dores, não fosse esta força espiritual, o mergulho no silêncio, não saberia responder por sua vida, quem sabe estivesse louco? Um miserável.
Quem sabe o “talvez” não tenha sido despertado para si próprio, se é mesmo verdade que se sente feliz, realizado, contente, por saber o silêncio abraça os homens, tornando-lhes a vida um caminhar à busca dos desejos mais profundos?! Sente-se ou não feliz com as suas conquistas, com as suas realizações? Se não se sente feliz, por que, então, se referir sob que águas caladas e profundas descansa a tênue camada da vida quotidiana, os que as conhecem valem por muitos? Não está sendo autêntico, e precisa, sem dúvida, da confiança de íntimos, da consideração de amigos; não importa a opinião e ponto de vista dos inimigos, os que lhe são indiferentes de todo. Talvez sim... Talvez não... O importante é que tenha esperança, sinta verdadeiramente a fé de que os objetivos e sonhos serão realizados.
Interessante isto de, enquanto pensa, reflete, medita, traduz a própria linguagem. Não o fizesse, de que adiantaria estar à busca de uma transparência de si, das relações com o mundo, os homens, de seus desejos, vontades, sonhos, utopias. E, também, o estilo em que sua consciência tece as linhas da rede da dimensão psíquica, espiritual, é sobremodo truncado, sabendo disto é que à medida que avança em pensamentos, a preocupação é de os traduzir, torná-los acessíveis à compreensão e entendimento.
Não se lembra de aquando uma artista-plástica de suas relações íntimas, amiga pessoal e íntima, numa conversa em um restaurante, Casa Velha ou Vaga-Lume, não se lembra bem, enquanto comia pizza, em companhia de outra amiga, uma delas disse com todas as letras: “Veja bem, é preciso traduzir as palavras dele para que seja entendido!...”
Desde então, passou a perceber o estilo de sua linguagem, percebendo ser verdade, era preciso sim traduzir, nada mais complexo que uma compreensão através de jogo de sentidos e desejos, lançar os dados. Tomou em mãos a tarefa de se explicar, enquanto vai conversando com a pessoa, mesmo que esta se torne irritada; não estaria, de algum modo, negligenciando a sua inteligência? Saberia como agir, sua intuição é sobremaneira perspicaz, consegue mergulhar fundo na alma humana, conhecendo-lhe a sede de conhecimento e de realização.
Apesar de sua enorme perspicácia, não apenas no que diz respeito a sentir que a pessoa se sente irritada com isto de, à medida do desenvolvimento de uma conversa, se explicar, há quem pense estar sendo a sua inteligência negligenciada, estar sendo inferiorizada, o que não é verdade. Não é de sua intenção tal atitude. Também no que diz respeito aos seus termos difíceis, palavras que nem uma minoria usa constantemente, só uns poucos desta minoria, há quem pense estar ele desejando ser superior. Traduz estes termos ao longo da conversa, assim que os percebe sendo usados. Orgulha-se de sua diferença em relação aos demais. Orgulha-se de sua linguagem riquíssima.
Cogito ergo non sum. Poder pensa-la ao longo de noites brancas, recordar-lhes as acepções, que maravilha! Sê-las no per-curso do rio sem margens, sem pressa, que orgulho e prazer! Quem sabe, por se orgulhar tanto, não o ostente, o objeto de prazeres e alegrias, escondendo-se de por trás da sombra, assim ninguém podendo pulá-la.
Recebe neste momento os amplexos do silêncio infeliz, sua necessidade de descoberta é a infelicidade que há neste silêncio, o que mesmo nele o torna infeliz, a sua responsabilidade no tecimento desta infelicidade. Conhecendo isto, reverterá todo o processo, seguirá seu itinerário mais relaxado, tranqüilo. Valerá por muitos após adquirir esta consciência. Saberá sob que águas profundas descansa a tênue camada da vida quotidiana, isto significando que sentido da vida é este que a transforma por inteiro, que a veste de esplendor e glória, e os caminhos que deverá trilhar para inda mais torna-la consciente estão eles mergulhados no dia a dia das situações e circunstâncias, não alhures, como houve tempo em que assim imaginara.
Nostalgia...
Quem dera o sol desta manhã de domingo, após o café com pão, ovos cozidos, leite com aveia, desaparecesse antes do meio-dia, a qualquer hora ou minuto, não lhe importaria, mesmo “em ponto”, retornando aquando os homens houvessem de todo esquecido!... Não chovesse. Os dias embaciados sucederiam em tempo anterior a quaisquer outros, e, depois dos que haveriam de vir, as noites seriam frescas e serenas como as que acontecem, iniciando o outono.
Se ainda não tem consciência de que conhece sob que águas caladas e profundas descansa a tênue camada da vida quotidiana, se não conhece suas realizações, conquistas, se com elas não se sente realizado, seria interessante se se pusesse a elencar as situações e circunstâncias desde um tempo de sua vida, chegando até o presente. Aí se conscientizaria ou não disto. Mas é bem evidente que na algibeira desta investigação a esperança e a fé deveriam estar presentes, vivas. As descobertas se sucederiam livres e serenas.
Deixa apenas um esboço de sorriso nos lábios, quem sabe fosse esplendoroso, se manifestado fosse. Imagina os homens nas alcovas, esquinas, bares e botequins, o trabalho, da sacada ou da janela de suas casas, pensando no sol, lembrando-se de alguns acontecimentos, alegrias, tristezas, aquando o sol iluminava os dias, o peito sedento de raios numinosos, tantas histórias para contar.
Sabe sim o que querem dizer as palavras deste último período do pensamento anterior, mas tem dificuldades de as expressar com mais transparência, está mergulhado numa ilusão, numa utopia, tornando-se, então, difícil a sua expressão, mas algo como que os homens, nos momentos e instantes de reflexão, investigação, criassem um personagem, e este fosse ele mesmo. A sua ilusão, a sua utopia é de ser uma referência, um objeto de busca e de encontro. Sonhar, sem dúvida, é muitíssimo bom. Tornar este sonho realidade é que se torna complexo, exige entrega sem limites e fronteiras. Ser referência para os homens?! Nada mais gratificante. Nada mais genuíno e esplendoroso. Contudo, isto exige uma busca exacerbada, saber conciliar as dimensões todas da vida, encontrar a coerência com as ações e atitudes, a identidade sua.
Con-templa o horizonte que, agora, se ergue imperceptivelmente num movimento cansado, e sacia as duas sedes que ninguém pode enganar por muito tempo, sem que o ser se estiole - a sede de amar e a de con-templar o verbo amar.
A imagem que con-templa bastante é a de Dostoiévski deitado no seu leito de morte. Lembrou-lhe ainda jovem, sentado à cadeira de poltrona, frente ao aparelho de televisão, na parede, um tapete arraiolo, lendo aquelas páginas, imaginando as ruas de São Petersburgo, no inverno, os russos disputando a propriedade das orelhas. Tantas emoções, sentimentos. Algo perpassando o mais íntimo, sensações estranhas, esquisitas, mas o espírito voltado para uma busca sem limites e fronteiras. Faz-lhe renovar sempre o sentimento da entrega por inteiro a algo que se ama, a algo que é como beber e comer, mesmo que os caminhos a serem perseguidos e seguidos sejam difíceis e complexos.
O que importa, na transparência, é a sua verdade... Vive-la!... Simples jamais o fora. Contudo, se lhe não fora possível as emoções, sensações, sentimentos, pôde, enfim, cria-los através de um dom, inteligência, tornando-lhes um estilo de vida. Por que esconder isto?!...
Aquele mesmo amigo que lhe sugeriu estabelecesse silêncio diante de suas dificuldades e problemas os mais diversos possíveis esteve numa situação em que alguém lhe dizia das arbitrariedades e gratuidades do amigo, respondendo-lhe com todas as letras: “Não acredito nisto. Ele é leitor de Dostoiévski”.
Não ser amado é apenas questão de pouca sorte; mas não ser capaz de amar é uma desgraça – refere-se a amar o outro, prestar-lhe atenção e cuidado, pois que agora está se conscientizando de que ainda não se ama; o que importa se para si é amando o outro que o amor por si se revelará? -, ultrapassa o sentimento do nada.



Manoel Ferreira Neto e Ana Júlia Machado.
(09 de abril de 2016)


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